Boletim (Anti)Segurança #51
Boletim (Anti)Segurança #51
11 anos, muitas marcas: a chacina de Osasco e Barueri (2015)
“Eu só tenho a dizer que, enquanto eu tiver vida e saúde, estou aqui para não baixar a cabeça para o Estado. Eu vou continuar lutando pelo meu neto, sobrinho, afilhados e por vocês. Enquanto eu tiver vida e saúde, eu vou continuar lutando, não abaixo a minha cabeça pro Estado.”
(Integrante do Movimento Independente Mães de Maio. Fala no ato de 10 anos da chacina de Osasco e Barueri)
Em sua carta aberta ao poeta estadunidense John Ashbery, em 1995, Waly Salomão crava em seu primeiro verso que “a memória é uma ilha de edição” (Salomão, 1996). Frase dita por um passante qualquer, ela escancara como a função representativa da linguagem jamais dá ou dará conta do vivido. No entanto, do terrível ao saboroso, é a memória que fica. Pois “a vida não é uma tela e jamais adquire/o significado estrito/que se deseja imprimir nela” (Ibid.).
O trabalho que realizamos junto à luta das mães de Osasco e Barueri contra a violência policial é, a um só tempo, a exposição que fazemos das memórias do vivido e do sabido em torno da trágica execução de mais de 20 pessoas na fronteira entre os municípios Osasco e Barueri, na grande São Paulo, e a reedição obstinada do que muitos querem apagar, esquecer, fazer desaparecer. Insistimos, portanto, por sempre lembrar o que gostariam que fosse esquecido ou apenas relegado ao passado remoto. Seguimos aqui para lembrar e resistir!
Tudo que temos feito nesses sete anos de trabalho de extensão e militância – como o livro, as conversas, os encontros, o podcast, os atos de rua, as comidas quentes nas contemporâneas casas de zungus, como a de Zilda Maria de Paula – não busca a justiça, a redenção, a reparação ou uma política pública. O trabalho que é feito junto às mães e a sua associação é voltado a transmudar, “a transformar o veneno e a ferrugem em pedaço de paraíso, ainda que irrompa um deus para resgatar o fardo humano” (Ibid.). Esse não é o fardo só destas mães, mas de todos nós, pois é a memória, essa matéria-prima que fica, que permanece e que não se quer se livrar, pois se faz, se refaz, se edita e se reedita a vida vivida e como ela é, como um fardo que se carrega sem drama, construindo a memória entre os que ficam, até golpe final.
Não há juízo. Eles sabem que nós sabemos que esse é o fardo da vida de quem sobrevive derramando o sangue dos outros e que, por mais que construam valas comuns e cemitérios clandestinos, haverá quem obstinadamente constrói uma memória e não deixa esquecer. Estamos aqui para isso. Memória de luta, resistências, permanências, obstinações, insistências... As políticas de segurança e suas polícias que tudo querem cuidar e controlar não penetram nas formas próprias da lembrança e da memória. Ainda que sumam com o corpo, elas seguem reativadas por nós, “como quem aperta um botão da mesa/de uma ilha de edição.” (Ibid.)
A memória que resiste é a matéria-prima, o material bruto, que constrói a recusa em ser governado pelas políticas do desaparecimento e do esquecimento sobre os eventos que eles querem que não sejam lembrados. Lutar é iluminar continuamente o extermínio dirigido aos seus.
A memória é sempre presente, sempre atual; não se trata de ficar preso ao passado para interrogá-la sobre o que ela ainda diz do nosso presente. E assim se passaram 11 anos desde o dia em que policiais executaram indiscriminadamente mais de 20 pessoas nos bairros do Munhoz Junior e Jardim Mutinga, entre Osasco e Barueri.
11 anos desde que essas mães receberam a trágica notícia que transformaria suas vidas para sempre. 11 anos desde que, pela iniciativa de Zilda e com a ajuda de outros movimentos de mães, como as Mães de Maio, se formou a Associação 13 de Agosto e a luta dessas mulheres se iniciou e nunca mais parou. E é sobre a atualidade desta luta, neste país com a polícia que mais mata no mundo, que milhares são desaparecidos e com a terceira maior população carcerária do planeta, acrescida por mais de duzentas mil pessoas sob monitoramento eletrônico, que devemos sempre falar, lembrar. Ativar a memória como resistência em cidades que viraram gigantescos condomínios monitorados por câmeras de segurança operando, junto às velhas polícias assassinas, as polícias do futuro, aquelas que, com as imagens das câmeras e com a ajuda de programações de Inteligência Artificial generativa, se pretendem preditivas.
Por tudo isso, nesta última década, muita coisa mudou em relação à violência de Estado, às políticas de Segurança Pública no Brasil e, em especial, no estado de São Paulo. Em muito pouco tempo as autoridades governamentais e burocráticas comemoram, junto às entidades da chamada sociedade civil organizada, a queda de uma série de índices de violência monitorados pelos relatórios público-privados, como o Atlas da Violência, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O principal e mais comemorado deles é justamente o índice de homicídio por cem mil habitantes, que se aproxima cada vez mais de um número de mortes considerado tolerável para os padrões da sociologia política contemporânea no ocidente. Nem mais se dissimula que uma parceria público-privada com o chamado crime organizado foi o que possibilitou que se pacificassem cadeias e quebradas, como está fartamente documentado desde pesquisas especializadas e largamente difundido por produtos culturais das empresas de entretenimento, de filmes e documentários às letras de músicas.
Isso tudo foi possível porque os três pontos fundamentais do sistema de justiça criminal seguem operando a todo vapor neste século XXI. São eles: 1) a capacidade de organizar um meio delinquente com suas lucratividades políticas (obediência e adesão popular) e econômicas (negócios legais, ilegais e filtragem do mercado financeiro que esquenta a grana); 2) a produção de variadas polícias, estatais e privadas, que distribuem racionalmente a violência, a letalidade e capacidade de controle dos meios abertos da cidade; 3) um sistema prisional superlotado e capaz de produzir medo, obediência e operar como meio de recrutamento e manejo dos contingentes do exército de reserva de poder que ele mesmo produz para retroalimentar um sistema de violências e lucratividades políticas e econômicas.
Trocando em miúdos, maneja-se a chamada sensação de segurança com índices e produções discursivas, mas a polícia segue matando com e sem farda, prisões para jovens seguem existindo como laboratórios de novas formas de controle, mantêm-se as prisões para adultos superlotadas e agora com um contingente monitorado por tornozeleiras eletrônicas, e o chamado crime organizado segue como um recurso discursivo perfeito que tudo justifica e submete toda a vida social ao imperativo da segurança. Reparem que em nome do combate ao crime organizado tudo é possível, seja em âmbito nacional ou internacional. Esses 11 anos da Chacina de Osasco e Barueri devem ser lembrados porque ela é um evento que reúne todas essas marcas da democracia securitária brasileira.
Nós do LASInTec trabalhamos há 7 anos junto à Associação 13 Agosto em busca de construir a memória e expor a verdade desta que ainda é a maior chacina do estado de São Paulo em número de mortos. Fazemos isso não por uma vaga noção de justiça ou porque nos sentimos apenas solidários à dor dessas mães que tiveram que enterrar de forma tão prematura seus filhos. Nosso interesse pelo evento e pelos desdobramentos dessa brutal chacina é por ela ser uma síntese de nossa democracia contemporânea; por indicar pontos decisivos das formas de governo violentas que recaem sobre nós e como devemos resistir a elas.
Em sua dimensão extensionista, trabalhar junto às mães de Osasco e Barueri nos coloca em contato imediato com os efeitos das políticas de segurança. Elas também nos ensinam como se sobrevive e como se resiste à violência policial e ao acosso dos burocratas armados do Estado. Como é possível ver no material que produzimos com elas ao longo desses anos, é desta luta, desta insurgência que emergem os saberes que produzimos sobre as políticas de segurança hoje. É por isso que, para a gente, livros, exposições, textos, mesas e todo material que produzimos são instrumentos de análise e peças dessa memória viva, que lembram do passado para falar de nosso presente: são atos de memória que se fazem como atos de luta.
Em sua dimensão de pesquisa acadêmica e diagnóstico de análise política, a história desta chacina e tudo que ela envolve, das execuções das pessoas no Bar do Juvenal aos julgamentos que inocentaram policiais, produzem uma síntese do que chamamos nos últimos anos de democracia securitária, que não é apenas uma forma de governo e/ou um regime político, mas o meio pelo qual se formata atualmente a liberdade no interior da racionalidade neoliberal com sua cidadania policial, sua extrema judicialização da vida e suas variadas formas de execução por meio de uma distribuição racional da violência.
Em suma, a memória desses 11 anos e a luta dessas mães não são importantes pelo passado, mas são decisivas para compreender nosso presente e transformar nosso futuro.
Uma memória que reitera a urgência em se abolir a polícia!
Referências
SALOMÃO, Waly. Carta aberta a John Ashbery. In: Algaravias: câmara de ecos. São Paulo: Editora 34, 1996.