Boletim (Anti)Segurança #48
Boletim (Anti)Segurança #48
Urbanização securitária: políticas de segurança e desenvolvimento
Da militarização que antecede e sustenta a renovação urbana em Medellín aos arranjos público-privados de vigilância na Zona Sul de São Paulo; da expansão energética e dos data centers viabilizados pelo novo PAC às políticas de policiamento preditivo, restaurativo e comunitário, observa-se a produção sistemática de territórios governáveis por meio da (in)segurança.
Em 28 de outubro, uma chacina no Rio de Janeiro deixou 117 civis mortos, além de quatro policiais. No mesmo dia, um grande jornal anunciava a chegada do novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) às favelas da Maré, Alemão, Rocinha e Acari, com promessas de obras de infraestrutura e ações de geração de renda. A coincidência não indica a existência de um plano oculto ou de coordenação direta entre políticas distintas, mas aponta para algo mais estrutural: operações de segurança em periferias urbanas precisam ser analisadas em conjunto com políticas de intervenção urbana, desenvolvimento e infraestrutura.
Desde os anos 1990, segurança e desenvolvimento passam a integrar um mesmo vocabulário político e institucional, legitimando intervenções violentas em territórios específicos. Impulsionada por organismos multilaterais como o PNUD, a noção de segurança humana deslocou o foco da defesa de fronteiras para o cotidiano dos indivíduos, influenciando práticas que aproximam polícia e exército e aprofundam a securitização das cidades. No neoliberalismo, vigilância militarizada, responsabilização individual pelos riscos e gestão estatística das populações se articulam, produzindo sociedades governadas pela insegurança permanente.
Nesse contexto, pobreza, informalidade e juventude periférica passam a ser tratadas como problemas de segurança. Discursos multicausuais autorizam simultaneamente repressão policial e tutela social, compondo um regime no qual políticas de cuidado e punição não se opõem, mas se reforçam. A centralidade da segurança atravessa todo o espectro político: enquanto setores conservadores mobilizam a retórica do narcoterrorismo, setores progressistas mantêm suas próprias agendas punitivistas, agora mediadas por políticas sociais, urbanas e comunitárias.
No dia 25 de novembro de 2025, como parte do 1º seminário de pesquisa do LASInTec, realizamos a mesa “Políticas de segurança e desenvolvimento”, na qual quatro integrantes do laboratório trouxeram aportes de suas pesquisas recentes ou em andamento e teceram um diálogo sobre estas questões. Embora partindo de distintas entradas, as apresentações evidenciaram muitos pontos de contato no que se refere à mobilização de discursos humanistas, progressistas (em sentido literal) e de sustentabilidade na atualização e ampliação do aparato securitário. Neste boletim, trazemos uma síntese de tal discussão retomando argumentos centrais dessas quatro apresentações. Iniciamos, assim, pela relação intrínseca entre operações militarizadas das forças de segurança e projetos de reestruturação urbana nas periferias de Medellín. Depois passamos à questão da influência crescente de agentes ligados ao mercado imobiliário na securitização urbana na Zona Sul de São Paulo e, na sequência, aos conflitos envolvidos na produção das infraestruturas energéticas demandadas pelas tecnologias contemporâneas de segurança. Por fim, trazemos uma discussão sobre a adoção de medidas ligadas à justiça restaurativa no Brasil e aos seus efeitos de ampliação do sistema penal e da criminalização da pobreza racializada.
O “modelo Medellín”
As recorrentes referências ao chamado “modelo Medellín” reforçam essa lógica. A cidade colombiana é frequentemente celebrada como exemplo de integração bem-sucedida entre políticas de segurança e renovação urbana, materializada em projetos como teleféricos, parques-biblioteca e escadas rolantes. No entanto, essas intervenções foram precedidas por mais de vinte operações militares na Comuna 13 [bairro de Medellín tido como um modelo para essas políticas de segurança e desenvolvimento, que teria saído de uma situação de pobreza e violência extremas para uma situação de progresso], culminando na Operação Orión, em 2002. No contexto da guerra ao terror, o governo colombiano fundiu guerrilha e narcotráfico sob a categoria de narcoterrorismo, legitimando ações de contrainsurgência que resultaram nos chamados “falsos positivos”, civis executados e apresentados como combatentes inimigos.
A militarização não cessou com a renovação urbana. Ao contrário, tornou-se condição prática para sua implementação. Os projetos urbanos floresceram sobre um território ocupado, no qual o controle territorial, o desaparecimento forçado e a administração sistemática da morte foram elementos estruturantes da política estatal. La Escombrera, maior vala comum urbana do mundo, condensa de forma extrema essa sobreposição entre modernização e violência: enquanto projetos ambientais e turísticos avançam, familiares seguem buscando corpos de desaparecidos e denunciando o entrelaçamento entre Estado e grupos paramilitares.
Pesquisas como as do CINEP indicam que a Comuna 13 não constitui uma exceção, mas a expressão mais visível de um processo disseminado por Medellín: o encadeamento entre operações militares, controle territorial e desaparecimento forçado como condição prática para a estabilização do território. Esse arranjo foi posteriormente convertido em “modelo” e passou a circular internacionalmente como solução técnica de urbanismo para contextos marcados por desigualdade, violência e informalidade.
A persistência da busca por desaparecidos — especialmente em torno de áreas como La Escombrera — desloca o enquadramento celebratório da cidade “exemplar” e recoloca o problema em seus termos materiais. O urbanismo apresentado como inovação depende de uma economia política do desaparecimento, isto é, de dispositivos que tornam determinados corpos e espaços descartáveis e determinadas mortes administráveis no interior da legalidade estatal.
A Zona Sul de São Paulo e os arranjos público-privados da segurança
Essa racionalidade não é particular do contexto colombiano. Em metrópoles brasileiras, e de forma especialmente visível em São Paulo, ela reaparece sob outros dispositivos. Não mais como ocupação militar espetacular, mas como integração entre planejamento urbano, mercado imobiliário e políticas de segurança. Na zona de fronteira entre as centralidades corporativas do vetor sudoeste — como Faria Lima e Berrini — e as periferias da Zona Sul, instrumentos urbanísticos projetam um reordenamento do território e contribuem para uma redefinição das relações entre centro e periferia.
O planejamento urbano paulistano tem sido progressivamente atravessado pela lógica da segurança, ao mesmo tempo em que agentes do mercado imobiliário assumem papel central em políticas públicas e projetos de securitização. Operações Urbanas como Faria Lima e Águas Espraiadas, e mais recentemente o Projeto de Intervenção Urbana Arco Jurubatuba, intensificam o adensamento construtivo, promovem aberturas viárias e remoções de favelas. Viabilizam e facilitam, assim, a expansão de edifícios corporativos e condomínios residenciais fechados equipados com modernos sistemas de vigilância e guardados por tropas de agentes de segurança privada.
Nesse cenário, os arranjos público-privados que se formam no campo da segurança tornam-se centrais. Eles articulam seguranças privados, policiais fardados e de folga, moradores engajados em programas de policiamento comunitário, redes de vigilância e sistemas eletrônicos de monitoramento, formando um aparato securitário que dissolve as fronteiras entre público e privado e transita entre o formal e o informal. O programa Smart Sampa é exemplar nesse processo. Derivado do City Câmeras, criado em 2017 por meio de parceria entre o SECOVI-SP, entidade representante do mercado imobiliário, e a Secretaria Municipal de Segurança, o sistema integrou milhares de câmeras públicas e privadas a uma nuvem comum que opera com base em um software de policiamento preditivo. Após nova licitação em 2023, o programa ampliou-se significativamente, chegando a cerca de 40 mil câmeras distribuídas pelo espaço urbano, e incorporando tecnologia de análise de vídeo para reconhecimento facial e de condutas ditas suspeitas.
A participação do setor imobiliário nesse processo não constitui uma anomalia, mas um sintoma da presença crescente do mercado nas políticas de segurança urbana. Outra frente relevante de atuação ocorre nos Conselhos Comunitários de Segurança Pública (CONSEG). Em bairros como Santo Amaro, síndicos profissionais e empresas administradoras de condomínios exercem influência significativa nas reuniões, articulando demandas, ampliando redes de vigilância e estabelecendo relações diretas com autoridades policiais. Seus acessos privilegiados a diferentes agentes tornam-se cruciais sobretudo em contextos de reestruturação urbana, que provocam incertezas na população local e desestabilizam dinâmicas cotidianas.
Arranjos semelhantes também emergem de modo mais informal, a exemplo de uma articulação comandada pelo gestor de segurança de um shopping da região com os comerciantes do entorno, a partir da qual organizam sistemas próprios de vigilância que se articulam com a polícia, ampliando o monitoramento do espaço urbano sem a necessidade de oficializar a medida como política pública. Agentes privados passam a controlar diretamente seus arredores, enquanto a polícia estende sua capacidade de vigilância de forma difusa, tornando seu alcance menos identificável para aqueles que são monitorados.
Embora esses atores não compartilhem interesses idênticos, convergem na definição dos chamados “problemas de segurança”, frequentemente referindo-se a moradores de rua, ambulantes e jovens periféricos de moto — grupos historicamente criminalizados. O resultado é a expansão contínua do aparato securitário, sustentado por uma noção de segurança que legitima a violência necessária para manter uma ordem social fundada na propriedade privada e na criminalização racializada dos despossuídos.
Não se trata apenas de assegurar projetos de desenvolvimento por meio da despossessão, mas de aprofundar práticas de controle voltadas contra aqueles definidos como obstáculos ao progresso. Essa lógica se intensifica à medida que as centralidades urbanas se expandem em direção às periferias, como no caso de São Paulo. A participação de agentes privados não obscurece o papel do Estado nesses processos: a violência estatal persiste mesmo quando mediada por parcerias público-privadas, como no Smart Sampa, nos CONSEGs ou nas empresas de segurança que atuam na Zona Sul.
“Com quantos paus se faz um data center?”
Essa articulação entre segurança, desenvolvimento e território torna-se ainda mais evidente quando se observa a expansão recente de infraestruturas estratégicas, necessárias inclusive às crescentes redes de vigilância e monitoramento. A pergunta aparentemente simples — “com quantos paus se faz um data center?” — funciona como o ditado popular sobre a canoa: é irrespondível porque omite os processos sociais, jurídicos, produtivos e territoriais que tornam sua existência possível. Assim como a canoa depende da origem da madeira, da energia do trabalho e das dinâmicas fundiárias, os data centers dependem de infraestruturas invisibilizadas na formulação inicial.
A expansão energética recente ajuda a dimensionar esses processos. Entre 2013 e 2023, a geração eólica cresceu de forma exponencial, com forte concentração no Nordeste. Em 2023, o novo PAC destinou bilhões de reais a parques eólicos, financiados majoritariamente por bancos públicos e operados por capital privado internacional. A energia fotovoltaica seguiu trajetória semelhante, com investimentos maciços em parques solares distribuídos pelo território nacional.
Essa energia abastece, entre outras infraestruturas, os centros de processamento de dados, cujo consumo elétrico cresce rapidamente e tende a se intensificar nos próximos anos. O uso intensivo de água por data centers e estruturas de policiamento avançado adiciona outra camada de pressão sobre os territórios. Mais de 90% desses complexos estão concentrados no eixo Centro-Sul, sobretudo em São Paulo, enquanto a energia que os alimenta percorre extensas redes de transmissão ampliadas por investimentos estatais.
Como grandes obras e redes energéticas exigem territórios juridicamente e policialmente estabilizados, programas de segurança e arranjos fundiários tornam-se centrais. O crescimento dos data centers — corporativos ou vinculados a sistemas como Córtex, Smart Sampa e Muralha Paulista — acompanha processos semelhantes em outros países, nos quais segurança e transição energética avançam de forma integrada.
Esse modelo articula cálculo securitário, reordenação fundiária e produção de uma imagem de tranquilidade necessária ao investimento. No Brasil, isso se expressa pela intensificação de conflitos no campo — grilagem, expulsões e pistolagem — cujo pico coincide com a implementação do novo PAC. A intervenção estatal reorganiza o espaço para melhor inseri-lo nas estratégias de acumulação, reproduzindo padrões históricos de conversão de bens comuns em propriedade privada, através da violência estatal e sujeição da vida a formas precárias de reprodução.
Responder à pergunta sobre os “paus” que compõem o data center implica reconhecer que sua construção depende de camadas de tempo e de violência: mineração, geração e distribuição de energia, logística e dispositivos jurídicos e securitários que viabilizam seu assentamento territorial. Ou seja, trata-se de processo que abrange, e de certa forma sustenta, a transição energética, o avanço dos data centers e a acumulação permanente. Ao custo da destruição contínua de formas de vida que resistem à essa ordenação.
Práticas restaurativas: a “polícia do cuidado”
Paralelamente, iniciativas como pacificação, segurança humana e segurança cidadã expandem a securitização de forma pouco problematizada. Práticas restaurativas passam a complementar mais do que substituir o sistema penal, propondo restauração de relações sociais e abordagens holísticas dos conflitos. No entanto, sua disseminação para além da justiça criminal — especialmente em escolas e programas comunitários — cria dispositivos de resiliência, disciplina e gestão emocional que, com um vocabulário humanitário, responsabilizam grupos sociais vistos como em/de risco por suas próprias condições.
Essas práticas integram políticas que combinam segurança e desenvolvimento, ampliam penalizações desde a infância e expandem o papel social da polícia para além da instituição policial. A partir dos anos 2010, programas passaram a utilizar a justiça restaurativa como eixo para categorizar riscos e agir preventivamente sobre crianças e jovens considerados vulneráveis, articulando cultura de paz e cultura de segurança.
Modelos de policiamento proativo defendidos por organismos internacionais reforçam essa lógica. Policiamento comunitário, prevenção situacional do crime e prevenção de crimes via design ambiental produzem uma espacialização do risco e ampliam a vigilância. Sistemas de geoprocessamento e monitoramento preditivo materializam esse controle, historicamente associado ao encarceramento em massa e à criminalização racializada da pobreza.
Na América Latina, essas estratégias fundamentam políticas de segurança cidadã que articulam programas sociais e expansão do sistema penal. Iniciativas que cruzam dados educacionais, assistenciais e de saúde operam como formas ampliadas de policiamento comunitário e emocional, enquanto o Estado investe simultaneamente na construção de novos centros socioeducativos.
Não há separação entre polícia repressiva e polícia do cuidado. Ambas compõem uma tecnologia de governo característica das democracias securitárias, integrando conhecimentos estatísticos e atuariais, políticas de desenvolvimento e intervenção social. A abordagem neoliberal do “combate ao crime” expande penas a céu aberto por meio de políticas que identificam vulnerabilidades desde o nascimento, estruturando trajetórias contínuas de vigilância e controle.
Urbanização securitária
O percurso deste boletim mostra que segurança e desenvolvimento não são esferas autônomas nem projetos em oposição, mas dimensões imbricadas de uma mesma tecnologia de governo. Da militarização que antecede e sustenta a renovação urbana em Medellín aos arranjos público-privados de vigilância na Zona Sul de São Paulo; da expansão energética e dos data centers viabilizados pelo novo PAC às políticas de policiamento preditivo, restaurativo e comunitário, observa-se a produção sistemática de territórios governáveis por meio da (in)segurança.
A urbanização securitária não se limita à repressão direta. Ela opera também pela gestão cotidiana da vida: antecipação de riscos, classificação de vulnerabilidades e construção de trajetórias monitoradas desde o nascimento. Práticas apresentadas como cuidado, inclusão ou pacificação funcionam, assim, como extensões do aparato penal, deslocando o controle para formas difusas e preventivas, sem eliminar a violência estatal — apenas redistribuindo-a.
Os arranjos público-privados da securitização urbana (Smart Sampa, CONSEGs, redes empresariais e condominiais) mostram que ela não diz respeito apenas à gestão do perímetro sob vigilância direta, mas faz parte de uma infraestrutura técnica e energética mais ampla, que sustenta novas formas de policiamento e reordenamento territorial. É nesse ponto que a segurança deixa de ser apenas política urbana e passa a se confundir com o próprio projeto contemporâneo de desenvolvimento.
A promessa de um futuro inteligente, sustentável e seguro depende de cadeias extrativas, redes de transmissão, estabilização fundiária e dispositivos jurídicos e policiais que reorganizam o território e aprofundam conflitos no campo e na cidade. Nessa economia política, a distribuição desigual da violência não é desvio: é princípio organizador do funcionamento ordinário das democracias securitárias, que administram vidas protegidas e vidas expostas sob a legalidade.
Tornar visíveis essas conexões é condição para desnaturalizar a segurança como bem universal e abrir espaço a outras formas de imaginar a cidade, o lugar onde se vive e a vida para além da suspeita permanente e da governança pelo medo.