LANÇAMENTO E DEBATE -
O QUE NÃO DESAPARECE: A MEMÓRIA
LANÇAMENTO E DEBATE -
O QUE NÃO DESAPARECE: A MEMÓRIA
O LASInTec-Unifesp convida todas e todos para a mesa "O que não desaparece: a memória".
O debate também demarca o lançamento do livro "Memória Obstinada: a luta das mães de Osasco e Barueri" (2025, Editora Igrá Kniga), que reúne anos de trabalho do LASInTec e de outros grupos e pesquisadores acadêmicos junto à Associação 13 de Agosto.
Título: O que não desaparece: a memória
Debatedores: Gabriela De Biaggi, Joana Barros, Zilda Maria de Paula (Associação 13 de Agosto) e Jonnefer Barbosa (PUC-SP).
Data: 07/04, terça-feira, 19:30
Local: Anfiteatro, no campus Osasco da UNIFESP. Endereço: Rua General Newton Estilac Leal, 354.
Link de inscrição no SIEX: https://siex.siiu.unifesp.br/catalogo-siex/29335/mais-info
Texto de apresentação
Em sua carta aberta ao poeta estadunidense John Ashbery, no livro Algaravias (1996), Waly Salomão crava em seu primeiro verso que “a memória é uma ilha de edição”. Frase dita por um qualquer passante, ela escancara como a função representativa da linguagem jamais dá ou dará conta do vivido. No entanto, do terrível ao saboroso, é a memória que fica. Pois “a vida não é uma tela e jamais adquire/o significado estrito/que se deseja imprimir nela”. O livro e a conversa que propomos é, a um só tempo, a exposição que fazemos das memórias do vivido e do sabido em torno da trágica execução de mais de 20 pessoas na fronteira entre os municípios Osasco e Barueri, na grande São Paulo, e a reedição obstinada do que muitos querem apagar, esquecer, fazer desaparecer.
Nesta exposição-conversa, não buscamos uma estória em que cada minúcia encerra uma moral, pois não há moral possível diante da obstinada lembrança de mães que perderam seus filhos de forma tão violenta. Elas sabem, como ninguém, que a vida “é recheada de locais de desova, presuntos,/liquidações, queimas de arquivos,/divisões de capturas,/apagamentos de trechos, sumiços de originais,/grupos de extermínios e fotogramas estourados”. Sendo assim, o “que importa se as cinzas restam frias/ou se ainda ardem quentes/se não é selecionada urna alguma adequada,/seja grega seja bárbara,/para depositá-las?”
O livro, a conversa, os encontros, os atos, as comidas quentes nas contemporâneas casas de zungus, como a de Zilda, não buscam a justiça, a redenção, a reparação ou uma política pública, se trata de transmudar, de transformar, o veneno e a ferrugem em pedaço de paraíso, ainda que irrompa um deus para resgatar o fardo humano. Este não é o fado destas mães, ele é de todos nós, pois é memória, essa matéria-prima que fica, que permanece; que não se quer se livrar, pois, com ela, se faz, refaz, edita e se reedita a vida, como um fado que se carrega sem drama, construindo a memória entre os que ficam, até golpe final que encontrará cada pessoa.
Não há juízo, eles sabem que nós sabemos e esse é o fardo deles, o fado da vida de quem sobrevive derramando o sangue dos outros e que, por mais que construam valas comuns e cemitérios clandestinos, haverá quem obstinadamente constrói uma memória. Memória de luta, resistências, permanências... As políticas de segurança e suas polícias que tudo querem cuidar e controlar não penetram nas formas próprias da lembrança e da memória, ainda que sumam com o corpo, elas seguem reativada por nós, “como quem aperta um botão da mesa/de uma ilha de edição.”
Em torno disso, convidamos para o relançamento do livro e uma conversa com Joana Barros, que há muito lida com a persistência oral dessas memórias de luta; Jonnefer Barbosa, que tem se dedicado em expor as tecnologias do desaparecimento em nosso continente latino-americano, como forma específica de produzir esquecimento, medo e servidão; Gabriella De Biaggi, geógrafa que pesquisa as formas securitárias estatais e privadas na cidade de São Paulo; Zilda Maria de Paula, que há mais de 10 anos mantém, obstinadamente, a memória desse trágico acontecimento no fundão da região metropolitana de São Paulo e que diz tanto sobre do que é feito isso que chamamos de Brasil.
A memória que resiste é a matéria-prima, o material bruto, que constrói a recusa em ser governado pelo políticas do desaparecimento e pelas tecnologias de policiamento da vida.
Sobre a obra
Este livro conta uma história e conta várias histórias. A Chacina de Osasco e Barueri completou 10 anos em 2025 e uma série de fragmentos de memórias e marcas no corpo da cidade e das pessoas continuam a rondar esse trágico (e cotidiano) acontecimento. Algumas dessas histórias são contadas nos vários artigos que revelam e analisam as dimensões políticas, sociais, jurídicas e pessoais desse acontecimento exemplar da violência de Estad na democracia securitária brasileira. Mas o que sobressai é a luta da Associação 13 de Agosto, a força da memória obstinada das mães que não deixam que essa história se perca entre as agruras de um cotidiano violento. Para essas mães, a violência é como a polícia: um golpe de Estado permanente.
O livro registra o trabalho de meia década do LASInTec junto a outros parceiros da UNIFESP com a Associação 13 de Agosto e com a raríssima pessoa que é Zilda Maria de Paula, uma guerreira incansável, capaz de encontrar leveza e alegria mesmo em meio a tanta dor. O livro mostra a relevância do caso: ao falar de uma situação específica revela a universalidade do problema. O Brasil poderá ser explicado, de um lado, pela brutalidade das chacinas, e de outro, pelo surgimento de grupos de mães que lutam pela memória dos filhos.