Boletim (Anti)Segurança #42
Cães de guarda: mais do mesmo da polícia e o acréscimo do policiamento hightech
Policiar e urbanizar é a mesma coisa.
Michel Foucault
Se a polícia é o baixo do político,
então é porque existe realmente uma baixa política.
Hélène L’Heuillet
mais das mesmas polícias, no plural
No dia 20 de fevereiro de 2025 o Supremo Tribunal Federal (STF), por meio do Recurso Extraordinário (RE) 608588, atribuiu o status de polícia ostensiva e comunitária às Guardas Civis Metropolitanas (GCM), criadas e lideradas pelas prefeituras. Dias depois, o sucesso da decisão já permitiu que prefeituras, como a de Itaquaquecetuba, mudassem os nomes de guardas civis municipais para polícia municipal¹. O STF se apoia numa interpretação bastante elástica do parágrafo 8º do artigo 144 da Constituição Federal, que estabelece, sem margens de dúvidas, que as guardas se restringem à proteção do patrimônio do município. Diz o texto: “os Municípios poderão constituir guardas municipais destinadas à proteção de seus bens, serviços e instalações, conforme dispuser a lei” (grifos nossos). Criadas oficialmente como guardas civis patrimoniais para assegurar prédios e propriedades do município, a decisão apenas reconhece (e, de certa forma, amplia), na jurisprudência, o que já ocorria de fato: as Guardas Civis são polícias ostensivas das prefeituras. Ela também estabelece um entendimento comum para o judiciário brasileiro, desde cima do ordenamento jurídico, sobre o status legal de polícia já reconhecido e ampliado por decreto federal expresso na Lei 13.022/2014, o Estatuto Geral das Guardas Municipais.
Não é de hoje que o lobby policial é capaz de produzir leis que atendem aos seus interesses paroquiais. Em grandes centros urbanos, as guardas municipais já atuavam como polícia há muito tempo e, apesar do nome civil, exibiam conduta e formato extremamente militarizado, bastando observar suas intervenções de policiamento comunitário em regiões do centro da cidade de São Paulo conhecidas como Cracolândia, especialmente a partir dos anos 2000.
Sobretudo em São Paulo, essa forma-polícia militarizada das Guardas Civis Metropolitanas (GCMs), que simulam e emulam a ostensividade da Polícia Militar, não é recente. Qualquer pessoa que tenha vivido em São Paulo nos anos 1980 e 1990 deve se lembrar do que era conhecido como a polícia do Jânio. Em seu mandato, entre 1986 e 1989, o prefeito pelo PTB, Jânio Quadros, criou a GCM, por meio da Lei Municipal Nº 10.115, de 15 de setembro de 1986, e lhe atribuiu uma fama que ia muito além do trabalho de zeladoria e cuidados patrimoniais para o município. Na época, os alvos dessa “nova” polícia eram os chamados “meninos de rua”, que cheiravam cola nas praças do centro da cidade e roubavam correntinhas de ouro das madames; os “pixadores” (com X mesmo), prática que era uma febre entre os jovens dos anos 1980/90; os skatistas, que quando eram pegos andando nas praças tinham seus equipamentos roubados pelas guardas; os punks e os darks, que andavam livres e em bando pelas ruas e, por vezes, se reuniam dentro dos cemitérios municipais; e, por fim, a polícia do Jânio tinha como alvo sazonal os foliões que, eventualmente, eram pegos com um tubo de lança perfume durante o carnaval fora dos bailes promovidos pelos clubes desportivos.
É evidente que essas imagens eram mobilizadas para justificar a criação e a ostensividade das guardas e, sob essas imagens, atingir pessoas que não necessariamente correspondiam a essas figuras sociais. No entanto, elas poderiam atingir (e efetivamente atingiam) pessoas que eram todas essas coisas ao mesmo tempo: punks, pixadores e skatistas. Cabe notar que os alvos da recém-criada GCM eram as práticas e comportamentos de crianças e jovens marginalizados, o que certamente colaborou para encher as cadeias criadas para jovens em São Paulo, como a FEBEM (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor), que não distinguia entre crianças e jovens “carentes” e/ou jovens “infratores”. Estas cadeias foram objeto de preocupações sociais do Movimento de Defesa do Menor² e palco de regulares rebeliões³, que se seguiram mesmo após a criação do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), em 1990, o que não freou a morte em larga escala de jovens nem o circuito de produção da delinquência e dos ilegalismos que massacra crianças e jovens pobres até hoje⁴, apesar de estabelecer, a partir de então, a diferença entre condição de abandono e praticante de ato infracional e de diferenciar, apenas na letra da lei, política de assistência e punição, nomeada pelo ECA de medida socioeducativa.
A militarização e a expansão da GCM se consolidaram logo em seguida, em 1993, quando Paulo Maluf, prefeito pelo PDS de 1993 a 1997, criou, no interior da Guarda Civil de São Paulo, a ROMU (Rondas Ostensivas Municipais), copiando e emulando o 1º Batalhão especial da PM-SP, a ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar). Em picapes Chevrolet D20, as viaturas da ROMU circulavam com armas à mostra e boinas pretas como as da ROTA. Além dos alvos já descritos, patrulhavam ostensivamente jovens negros usuários de maconha (ou não) nos bairros periféricos da cidade, além de perseguir moradores de rua pelo centro tomando seus poucos pertences como carroças de reciclagem e cobertores. Em resumo, a lei federal de 2014 e a recente decisão de entendimento do STF apenas dão ordenamento jurídico e jurisprudência à uma forma de polícia existente há quase quatro décadas, coroando a dimensão local do executivo com mais uma polícia para chamar de sua: o presidente tem sua polícia, o governador tem sua polícia e, agora, o prefeito também tem, de fato e de direito, a sua polícia.
policiamento hightech: inteligência policial e a criação do Smart Sampa
Neste carnaval de 2025, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), criou o prisômetro. Trata-se de um painel, ligado 24 horas, que atualizará, em tempo real, o número de detenções realizadas por meio do sistema de segurança com câmeras baseado no uso de inteligência artificial generativa chamado Smart Sampa. Esse sistema opera por meio de reconhecimento facial para identificar suspeitos, foragidos e pessoas desaparecidas. Uma ação espetacular que conta com a devida cobertura midiática e repercussão, contra e a favor, em redes sociais, cumprindo a função principal de anunciar que, a partir de agora, a cidade de São Paulo está toda mapeada por câmeras que contam com programação robótica para capturar indesejáveis. Ainda que o núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública de São Paulo tenha pedido a suspensão do contador de detenções, o recado já estava dado e as pessoas passaram a andar pela cidade com essa informação registrada.
O Smart Sampa foi lançado em maio de 2023, em meio a um processo já avançado de esvaziamento do City Câmeras, quando a prefeitura de São Paulo, que era liderada por João Dória (PSDB), por meio da Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU), abriu o edital para a contratação de serviços destinados à implantação do mais novo sistema de videomonitoramento municipal. Esse novo programa substituiria todos os anteriores, incluindo o City Câmeras, o SP+Segura e o CompStat. O consórcio ganhador, Smart City, composto pelas empresas CLD Construtora, Laços Detentores e Eletrônica LTDA, Flama Serviços LTDA, PK9 Tecnologia e Serviços LTDA e Camerite Sistemas S.A. – sendo esta última a principal doadora de câmeras para o antigo City Câmeras –, assinou contrato com o prefeito Ricardo Nunes em agosto do mesmo ano, com custo mensal de 9,8 milhões para os cofres públicos. O contrato prevê a instalação de 20 mil câmeras até o final de 2024, além da integração de outras 20 mil câmeras, que serão cedidas através de parcerias público-privadas. Em comparativo com a atual população paulistana, isso implica em uma câmera para cada 300 habitantes.
A Smart City, com este contrato, passa a ser responsável pela criação da plataforma Smart Sampa, que vai concentrar e integrar não só as imagens geradas por estas câmeras, mas também os diversos sistemas das demais secretarias, descrito no edital como item principal na implementação do novo sistema. O objetivo, para além da repressão e captura de infratores, é que o sistema seja um primeiro passo para a implantação de sistemas integrados da Plataforma Inteligente, permitindo a troca de informações rápida e a interoperabilidade entre sistemas, com auxílio de IA generativa para o processamento e tratamento das imagens.
No decreto de criação do mais novo investimento computo-informacional, lançado em 4 de julho do último ano, assim como no Muralha Paulista, tratado no nosso Boletim 40, o sistema de videomonitoramento combina descentralização na captação de informações com centralização num banco de dados tratado por IA (Inteligência Artificial). O sistema prevê integrar, além das câmeras via parcerias público-privadas, todos os órgãos de segurança pública da cidade, as centrais de monitoramento de câmeras de vigilância e os serviços de urgência e emergência. Desde já, ele está integrando a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) com o banco de dados de pessoas desaparecidas. O decreto também anuncia em seu artigo 9° que o Smart Sampa poderá ser integrado com os sistemas operacionais do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP). Além disso, o sistema está integrado à plataforma Córtex, a base de dados criminais do governo federal, por acordo assinado com a prefeitura de São Paulo em 10 de janeiro de 2025.
A central de monitoramento do software paulistano foi inaugurada no dia 4 de julho de 2024, no Centro Histórico de São Paulo, na Rua XV de Novembro. Neste palco de lançamento da central, um novo gadget securitário também estava sendo testado: o cão-robô da cidade de São Paulo. Segundo Leandro Ramalho⁵, inspetor da GCM de São Paulo e comandante do Dronepol, o novo pet foi testado durante os horários de pico do almoço, na mesma rua, que também é endereço da Bolsa de Valores. A central de monitoramento possui uma infraestrutura que lembra os cenários de filmes policiais futuristas, repleta de computadores e grandes paineis em que se veem imagens das câmeras e os dados sobre as ocorrências da cidade. Nela, trabalham mais de 400 funcionários da GCM e da Defesa Civil. O prédio funciona 24 horas e abriga, além da Coordenação do Smart Sampa, a Central de Monitoramento do Smart Sampa e a Superintendência de Operações Especiais (SOI).
Tudo é feito e comunicado para impressionar. Mais importante do que os recursos tecnológicos em si são os efeitos que esse tipo de parafernália produz nas pessoas. Cabe anotar que muito dessa tecnologia já opera privadamente em prédios e condomínios e, como visto, o objetivo - e a promessa - é que tudo isso esteja integrado em um grande cérebro eletrônico com inteligência artificial/policial generativa⁶. Exalta-se, também, que essa capacidade de registro quase infinita e a extensão quase total da capacidade de monitorar ambientes a céu aberto servirá para encontrar pessoas desaparecidas, responder de forma rápida e eficiente a catástrofes ambientais e combater violações de direitos humanos, como violência doméstica.
Toda essa tecnologia de última geração opera e realiza a função mais antiga derivada da modernização da polícia que é a ciência política como ciência da polícia⁷, tratando-se precisamente de um saber sobre a cidade para gestão de sua população, agora ampliada para gestão ambiental, em movimento e em tempo real. Todo uma capacidade de gestão das pessoas em sua coletividade pode ser simultaneamente individualizada pelo reconhecimento biométrico; o ambiente, antes imprevisível e até hostil, pode ser controlado em tempo real; a repressão de determinadas condutas indesejadas, pode agora ser interceptada e até antecipada; a capacidade de intervenção pode, finalmente, ser automatizada e impessoalizada por um cérebro de robô. A polícia sempre se pretendeu preditiva, e a IA generativa que opera esses sistemas de monitoramento promete realizar essa utopia moderna do governo das polícias.
muita polícia, muito dinheiro e uma economia política da polícia
Como visto, desde os anos 1980, São Paulo parte na linha de frente na criação de uma polícia para o executivo municipal chamar de sua. Quando, em 2014, a então presidente Dilma Rousseff (PT) criou o Estatuto Geral das Guardas Municipais, as tropas já se espalharam por todo o território nacional. Vejamos uma amostra de seu tamanho e de seus custos hoje. Os dados a seguir foram retirados de notícias e relatórios governamentais listados ao final deste boletim.
Atualmente no Brasil, dos 5.570 municípios existentes, 1.322 (23,7%) têm suas Guardas Civis Metropolitanas estabelecidas. O efetivo total destas guardas soma 101.854 agentes, dentre eles 86.230 homens e 15.624 mulheres. Apenas no estado de São Paulo, dos 645 municípios existentes, 219 têm suas Guardas Civis Metropolitanas estabelecidas, o que representa 16,5% do número de todas as Guardas do país. O efetivo total destas Guardas soma 26.608 agentes, dentre eles 21.900 homens e 4.708 mulheres. Somadas, as Guardas Municipais no Brasil formam o terceiro maior efetivo de agentes de segurança no país, perdendo apenas para as polícias militares e civis estaduais.
A tendência, sobretudo após a decisão do STF, é de crescimento exponencial em comparação com as polícias que, por enquanto, são maiores e mais numerosas que as GCMs. Entre os anos de 2013 e 2023 a quantidade de policiais militares caiu 6,8%, e a de policiais civis estaduais caiu 2%. Em contrapartida, o número de prefeituras que criaram guardas municipais aumentou em 35,7% na mesma década. Nota-se que 34 municípios excediam, no ano de 2023, a previsão legal e possuíam mais agentes do que a legislação federal permite. A maioria desses municípios é formada por cidades pequenas, com até 50 mil habitantes.
Os estados com o maior número de agentes subordinados às GCMs de seus municípios são, respectivamente: 1) São Paulo (26.608 agentes); 2) Rio de Janeiro (16.076 agentes); e 3) Bahia (9.524 agentes). Os estados com o maior número de Guardas Municipais estabelecidas são, respectivamente: São Paulo (219 municípios); Bahia (214 municípios); Pernambuco (91 municípios); e Ceará (90 municípios). A manutenção de um efetivo deste tamanho tem seus custos. Só a cidade de São Paulo recebeu, em 2024, recursos do Ministério da Defesa e do Ministério da Justiça e Segurança Pública que totalizaram R$1.134.981.360, destinados principalmente a pessoal e equipamentos, sobretudo armas letais e menos letais (chamadas de não-letais). Considerando apenas a CGM de São Paulo, seus gastos com armamentos chegaram a R$14.359.791,34 em 2023. Esse montante foi gasto com a compra de 98 carabinas 9mm (R$ 760.314,38), 41 fuzis 5.56 (R$ 478.451,96), 2091 pistolas (R$ 13.121.025,00) e 110.000 munições (R$ 529.100,00)⁸.
A partir destes dados, é possível destacar mais alguns pontos sobre as Guardas Municipais no Brasil. O dado que indica o crescimento de agentes das GCMs e o decrescimento de agentes da Polícia Militar deve ser analisado, inicialmente, a partir de duas chaves: 1) Formação flexível: se a formação de policial militar leva de 1 à 3 anos, a formação teórica e prática de um agente da GCM leva de 6 à 9 meses; e 2) Maior remuneração e melhor sistema interno de progressão de carreira na GCM. Quanto ao primeiro ponto, cabe ressaltar que a militarização progressiva das GCMs, bem como o aumento intensivo dos investimentos em armamento pesado para este órgão da segurança na cidade de São Paulo, estão sendo realizados no contexto de uma formação precária e atropelada dos agentes. Isso não significa que um maior tempo de formação dado aos agentes de segurança ou burocratas armados seria capaz de fornecer algum ganho em termos de controle de sua inerente violência, mas sim que se opta pelo caminho mais barato para a formação de tropas. Como indica a matéria do G1, há uma diferença significativa entre a atuação de um agente de segurança que passa por 326 horas de treinamento de tiro defensivo (caso da Polícia Militar) e um burocrata armado que passa por 150 horas (agentes da GCM); principalmente quando o agente da GCM tem à sua disposição, na cidade de São Paulo, mais de 110 espingardas calibre 12mm, mais de 83 fuzis 5.56mm e mais de 153 carabinas 9mm. Os salários também ajudam na contenção de custos, uma vez que manter um efetivo da GCM é mais barato.
Nessa economia política da polícia, que vive e dá forma à utopia da previsão e de uma segurança preditiva, não interessam apenas os cálculos econômicos, mas sobretudo o cálculo político que visa a produção de condutas esperadas, programáveis e moduláveis. Nesse ponto, os atuais investimentos em policiamento preditivo buscam um acréscimo de valor, um ativo entre o humano e o não-humano, que vê na inteligência artificial generativa uma panaceia. A segurança operada pela racionalidade neoliberal não é apenas uma organização racional da violência para defesa da propriedade, dos proprietários e do Estado, mas também um ativo político e econômico que produz valor e ordem, a qual é emoldurada por um quadro jurídico elástico o suficiente para atender interesses imediatos e (re)programáveis. A recente decisão do STF sobre as guardas municipais é um exemplo: no governo das polícias vale mais a flexibilidade no governo das condutas e no controle das ruas do que a letra dura do império da lei. Nesse cenário, a formação de forças extralegais e parapoliciais é mais do que previsível; é esperada.
cães humanos, não-humanos e robôs
A prefeitura da cidade de São Paulo, em uma ação conjunta à GCM, iniciou o ano de 2025 com uma demonstração do comprometimento da atual gestão com o investimento financeiro e aprimoramento tecnológico na segurança pública. Durante a tradicional queima de fogos na Avenida Paulista, a mais nova aquisição da GCM, um cachorro-robô, previamente discutido, desfilava entre os policiais garantindo segurança aos celulares das milhares de pessoas que ali decidiram acompanhar a virada de ano. O cão-robô é sempre acompanhado por pelo menos três agentes da GCM e tem autonomia para funcionar a uma distância de até 300 metros do controle; além disso, é equipado com câmeras que utilizam algoritmos de reconhecimento facial por IA generativa, transmitindo imagens em tempo real para a central do Smart Sampa. Os cães-robô, longe de servirem apenas para uma captação em larga escala de biometria facial, o que radicaliza a já intensa permeabilização dos dispositivos securitários em todas as esferas e espaços da vida cotidiana, podem ser úteis para apaziguar “enquadros” e tranquilizar o contato dos agentes de segurança com a população por serem considerados, segundo as notícias de sua criação⁹, “animais mais amistosos”, além de promover a chamada acumulação primitiva de dados (Colonialismo Digital).
O pet é operado por joystick e controlado por GCMs treinados pelo programa Dronepol¹⁰, que está entre os cursos preparatórios em armas menos-letais (ditas não-letais) ofertados a GCM paulistana, sob comando de Leandro Ramalho, Inspetor Superintendente da IOPE/GCM (Inspetoria Regional de Operações Especiais). Os bichinhos eletrônicos são produzidos na China pela mesma empresa que é responsável por fornecer as câmeras utilizadas no Smart Sampa. O sistema de vigilância, ao qual o pet serve e que, segundo a SMSU, é o maior e mais completo sistema de câmeras inteligentes com as mais modernas tecnologias de inteligência artificial generativa, realiza o reconhecimento por biometria facial de pessoas foragidas e desaparecidas. Basta que sejam registradas pelo cão ou pela câmera. O sistema também pode reconhecer placas de carros. Para isso, trabalha por meio de algoritmos que geram alertas sobre possíveis atos classificados por lei como criminais: vandalismos, invasões e furtos. Assim como o Muralha Paulista, do governo estadual, e o Córtex, do governo federal, a prefeitura garante que o sistema respeita a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados, Lei nº 13.709/2018). Com seis meses de sua implantação, o Smart Sampa já é responsável por mais de 1.900 prisões e conta com 23 mil câmeras já em uso (dados de dezembro de 2024). Como visto, a aposta na criação de leis que conteriam eventuais abusos dessas tecnologias e seus usos, também compõe a utopia securitária, pois, em geral, sucumbe à elasticidade do governo das polícias e ao casuísmo hermenêutico da jurisprudência.
O sistema que compõe o Smart Sampa é tão cheio de conexões, interfaces e protocolos que a tarefa de o descrever é sempre inacabada, mas paremos nesse brinquedinho hightech: o cão-robô. Essa figura de um animal não-humano artificial, supostamente mais simpático e capaz de despertar a curiosidade das pessoas, expõe uma verdade evidente sobre as tecnologias políticas da polícia: a figura servidora do cão, não aquele de rua que corre livre pelas calçadas e causa repulsa nos cidadãos, mas aquele dócil e obediente que está adestrado para proteger a propriedade e garantir a ordem. Ele é, em uma só figura, o que toda uma tradição crítica sempre disse sobre a polícia: cães de guarda da ordem e robozinhos do sistema.
¹ As mudanças de nome das guardas propostas e, em alguns casos, aprovadas pelas câmaras municipais, foram posteriormente suspensas pelo STF - não por divergências em relação à explicitação do papel de polícia exercido pelas GCMs, mas com o argumento de que a medida atropelaria as devidas hierarquias estatais. Ao vetar as mudanças de nomenclatura, Flávio Dino sustentou que “Permitir que um município altere a nomenclatura de sua Guarda Municipal por meio de lei local representaria um precedente perigoso, pois equivaleria a autorizar Estados ou Municípios a modificar livremente a denominação de outras instituições cuja nomenclatura é expressamente prevista na Constituição Federal”. G1 Mogi das Cruzes e Suzano. “Ministro do STF veta mudança de nome de GCM para Polícia Municipal em Itaquaquecetuba”. Acesso em: 25 de março, 2025.
² Sobre a chamada “questão do menor” nos anos 1980, ver Edson Passetti. O que é menor? Coleção Primeiros Passos. São Paulo: Brasiliense, 1987.
³ Sobre as regulares rebeliões nas unidades da FEBEM, ver Emir Sader; Maria Ignês Bierrenbach e Cyntia P. Figueiredo. Fogo no pavilhão: uma proposta de liberdade para o menor. São Paulo: Brasiliense, 1987.
⁴ Ainda sobre a chamada “questão do menor”, impossível não recordar do filme de Hector Babenco, “Pixote, a lei do mais fraco”, lançado em 1981 e indicado para o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. Mesmo que muita coisa tenha mudado nesses mais de 40 anos, trata-se de registro incontornável sobre a produção da delinquência no Brasil.
⁵ CNN Brasil. “Veja como funciona o cão robô do Réveillon na Avenida Paulista (SP)”, em 31 de dezembro de 2024. Consultado em 25/03/2025.
⁶ Como exemplo do uso em condomínios, há o SingDog, do Grupo Singular, uma empresa especializada em segurança de condomínios, o cão-robô da polícia privada já circula em condomínios da cidade de Curitiba, no Paraná. Cf. Lucas Sarzi. “Cão de guarda diferente: condomínio de Curitiba tem cão-robô cuidando da vigilância”. Consultado em 25/03/2025.
⁷ Sobre a ciência política como ciência da polícia, ver Michel Foucault. Segurança, Território, População. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
⁸ Isabela Leite, Norma Odara e Léo Arcoverde. “Prefeitura de São Paulo triplica gastos com fuzis para Guarda Civil Metropolitana em 3 anos” In G1 Portal de Notícias. 15 de março de 2024. Consultado em 25/03/2025.
⁹ Fernanda Alves Davi. “GCM passa a usar cão-robô para monitoramento de áreas com grande público em SP; veja vídeo”. O Globo, São Paulo, 8 jan. 2025. Acesso em: 26 mar. 2025.
¹⁰ PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO PAULO. Programa Dronepol. Secretaria Municipal de Segurança Urbana, 4 set. 2023. Acesso em: 26 mar. 2025.
Referências bibliográficas
CNN BRASIL. Veja como funciona o cão robô do Réveillon na Avenida Paulista (SP). YouTube, 8 jan. 2025. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=itaBjPbpzec>. Acesso em: 26 mar. 2025.
FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
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LEITE, Isabela; ODARA, Norma; ARCOVERDE, Léo. Prefeitura de São Paulo triplica gastos com fuzis para Guarda Civil Metropolitana em 3 anos. G1 Portal de Notícias, 15 mar. 2024. Disponível em: <https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2024/03/15/prefeitura-de-sao-paulo-triplica-gastos-com-fuzis-para-guarda-civil-metropolitana-em-3-anos.ghtml>. Acesso em: 25 mar. 2025.
PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO PAULO. Prefeito assina contrato para o início do Smart Sampa, maior programa de videomonitoramento da cidade com até 40 mil câmeras. Prefeitura de São Paulo, 7 ago. 2023. Disponível em: https://capital.sp.gov.br/w/noticia/prefeito-assina-contrato-para-o-inicio-do-smart-sampa-maior-programa-de-videomonitoramento-da-cidade-com-ate-40-mil-cameras-2. Acesso em: 26 mar. 2025.
PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO PAULO. Programa Smart Sampa. Secretaria Municipal de Segurança Urbana, 7 fev. 2025. Disponível em: <https://capital.sp.gov.br/web/seguranca_urbana/w/smart-sampa-2>. Acesso em: 26 mar. 2025.
SADER, Emir; BIERRENBACH, Maria Ignês; FIGUEIREDO, Cyntia P. Fogo no pavilhão: uma proposta de liberdade para o menor. São Paulo: Brasiliense, 1987.
SARZI, Lucas. Cão de guarda diferente: condomínio de Curitiba tem cão-robô cuidando da vigilância. Disponível em: <https://www.bandab.com.br/curitiba/condominio-curitiba-cao-robo-vigilancia-video/#google_vignette>. Acesso em: 25 mar. 2025.